Eles não sabem o que falam

-"Parem o Trem !!! Parem o Trem !!!".....Peço a todos os passageiros que façam agora um momento de silêncio em honra aos mortos e aos vivos, sobreviventes da terrível tragédia que se abateu sobre nós naqueles chamados "anos de chumbo" de sofrida e triste memória.
A exatos 4o anos em 13 de dezembro de 1968, era promulgado no Brasil o AI-5 (Ato institucional n° 5) que dava todo o poder ao Estado para sequestrar pais e mães de família, de torturar, de humilhar e de matar cidadãs e cidadãos brasileiros além de instituir a censura aos meios de comunicações, aos meios artísticos e às mentes de toda a nossa nação durante o período daquela amaldiçoada ditadura militar, uma terrível e longa noite que perdurou por 20 anos. Fatos isolados não fazem a história, isso é certo, porém este foi o princípal ato do arbítrio e da ânsia de mandar e desmandar a qualquer custo e a qualquer preço.
Eu era uma criança neste dia e ainda não entendia porque meu vizinho foi tirado a força de dentro de casa em uma madrugada, ou ainda pior, quando o pai do meu melhor amigo sumiu de uma vez para nunca mais voltar, aquilo se fixou na minha mente infantil como um longo pesadelo que durou até eu chegar na adolescência onde comecei a entender e a trilhar os caminhos da resistência. Aos 20 anos, a partir de 1977 entrei com a cara e a coragem no movimento estudantil como um arremedo de Dom Quixote, querendo vingar as mortes do Alexandre Vannucchi Leme, do Manoel Fiel Filho e do Vladimir Herzog, traze-los de volta a vida como se eles fossem de fato meus irmãos ou meus pais ou ainda, e aí sim, meus ídolos e verdadeiros heróis. Como um dos "liderezinhos" naquele movimento de inúmeros líderes, fui preso por quatro vezes, todas por desacato àquelas "autoridades", o que me rende hoje o carinho do novo amigo "Cloaca", prisões como fruto das minhas "ideologias exóticas".
A primeira prisão foi em 77 por conta de ter feito parte da comissão de negociação para a evacuação pacífica da Praça Ramos durante uma passeata, cercada por tudo quanto é tipo de cachorro do então "cachorro" e secretário de segurança Cel. Erasmo Dias, fui preso pelo próprio por desacato à sua autoridade, por eu ali ter coberto a minha cabeça com o casaco para me livrar do seu perdigoto, o homem xingava, gritava e babava e eu reclamei. A segunda prisão foi quando da invasão da PUC pelas tropas e a cavalaria da PM e eu embora não estudasse lá, participava de uma manifestação do Mov. Estudantil pró reconstrução da UNE. Tentei me esconder, mas sozinho me vi acuado por soldados montados e de costas para mim e temendo ser atingido por uma daquelas bombas de fósforo e me queimar (era bomba pra todo lado), pensei numa "estratégia" para tentar causar um tumunto ali e então escapar, aí enfiei uma '"brochura" enrolada (e proibida) na "baixa" de uma égua da cavalaria, o plano estapafúrdio não deu muito certo e fui pego a força daquela vez, não sei até hoje porque não me conduziram junto com os outros mais de 1000 presos daquela noite para o Batalhão Tobias de Aguiar na Av. Tiradentes, acabei indo parar numa delegacia, talvez por "excesso de cotingentes", mas fui de "transporte individual" debaixo de muita porrada. A terceira foi mais tarde já em 79 em uma panfletagem do lado de fora do estádio da Vila Euclides em São Bernardo durante uma das famosas assembléias dos metalurgicos, desta vez eu apanhei bastante. Estavamos em cinco companheiros e depois de rodar por muito tempo em um camburão, chegamos todos encapuçados não em uma cela, mas em uma sala bem grande, vazia e de janelões fechados que depois descobri que era do prédio do DOPS na Rua Mauá. O "carcereiro" pediu que cada um de nós permanecesse calado em um canto da sala e em absoluto silencio até que pudessemos ser "entrevistados" por alguém "superior". Depois de umas seis horas ele voltou e eu estava sentado no centro e completamente esquecido da sua "recomendação", após um primeiro pontapé para que eu me lembrasse, respondi a ele:
-"Voce tem que voltar pra escola e aprender geometria, se a sala é quadrada e estamos em cinco, quer que eu fique onde, em qual do teu canto imaginário?"
Aquela "sugestão educacional" me custou muitas porradas, chutes "precisos", afogamentos em um tanque sujo e fétido e também um cigarro várias vezes aceso e apagado no meu ombro direito e cuja cicatriz carrego até hoje. Sem contar uma das minhas pálpebras que de noite ainda custa a fechar. A quarta prisão foi no mesmo período e também por desacato, desta vez a uma patente mais "leve", um sargento da ROTA e mulato que prendeu um companheiro negro por achar que ele era "suspeito", como (na opinião dele ) qualquer outro negro que se "encontrasse parado". Na verdade ele estava conosco panfletando na esquina da Libero Badaró com o Largo São Francisco. O que eu disse para aquele "milico racista" eu não conto porque hoje isso me daria uma outra e justa cadeia por preconceito racial, só fui "preconceituso" naquele dia.
A minha pequena experiência não foi nada diante de tanta estupidez e brutalidade daqueles assassinos, mas eu pude ver e constatar pelo lado de dentro o terror assombroso daquelas masmorras. Eu nem apanhei muito, exceto por conta de algumas "divergencias geométricas", tudo porque naquela época eu namorava a filha de um juíz de 1ª instância que me tirava das "canas" assim que avisado (tínhamos a nossa rede de informação) enquanto rasgava minhas "fichas de hospedagem" para apagar quaisquer "vestígios" de "estadia" (não digo seu nome, nem de onde é, já que jurei a ele nunca contar a ninguem de seus "favores salvadores") . Apesar de ele me incentivar e até chegar a se declarar meu "fã", sabiamente aconselhou a sua filha a não prolongar o tal namoro. Na época eu trabalhava em Santo André, estudava na Barra Funda (Fac. Osvaldo Cruz) e morava em Santana e só participava de todas as manifestações do Mov. Estudantil por conta das inúmeras "consultas médicas" marcadas e abonadas pelo meu chefe que sabia de tudo e dizia e queria "não saber de nada". Trabalhei, estudei, militei e ofereci minha alma e o meu coração a uma causa da qual jamais me apartarei (e nem seria possível).
O que veio a seguir foi ajudar e assistir de corpo presente aqui no Colégio Sion à fundação do PT e a consequente não conclusão do meu curso de engenharia química, interrompido no 4° ano por mudança meio "às pressas" para Porto Alegre. Já morando lá me casei e voltei mais tarde em 1986. Tive tres "casamentos"(meu 3° e definitivo já dura 17 anos), duas lindas filhas ( só permito a elas que me julguem mas acho que me absolveram ) e sòmente um e único partido, a quem dediquei mais da metade da minha vida e ao qual dedicarei todo o resto. Poderia até reivindicar "reparações" acho um legítimo direito, mas tudo o que pude fazer e quando fiz, não o fiz por dinheiro.
Hoje e nesse mesmo instante, me encontro aqui "vendendo bilhetes de viajem" aos passageiros do "PTrem das Treze" por não poder mais estar e andar nas ruas já que eu "cumpro prisão domiciliar" e desta vez sem cometer nenhum delito por conta de uma "distrofia muscular progressiva" ora agravada e aguardando pesquisa com células tronco.
A "minha nova revolução e missão" é tentar fazer rir, detonar "Demo-tucanos", destruir PIGs, desmoralizar o "inimigo" e me abrir aos amigos sem nenhum constrangimento, culpa ou medo de ser julgado "piegas". Fiz questão de me apresentar tanto para rememorar esta data fatídica como e principalmente para melhor e mais me aproximar dos tantos amigos que já fiz nesses sòmente 40 dias de "bloguezinho de sacanagens" e quero aprender com todos voces, se puderem, de como me comportar nessa nova e inédita tarefa.
Tudo isso dito para ainda poder fazer minhas, as palavras contidas no texto de um antigo e velho amigo da família e extraordiordinário JORNALISTA, o Ricardo Kotscho que ontem em seu blog, o "Balaio do Kotscho" disse o seguinte:

"É bom que todo mundo lembre agora o que foi aquele período mais tenebroso da ditadura, não só para que ele nunca mais se repita, mas para que alguns veículos e muitos colegas parem de falar em ameaças à liberdade de imprensa cada vez que se ousa contestar ou apenas discutir o seu trabalho.
Eles não sabem o que falam ou não lembram o que foi a ditadura militar. O Brasil vive hoje o seu mais duradouro período de plenas liberdades públicas e, se alguma ameaça persiste ao livre trabalho dos jornalistas, ela não vem do governo central, como naquela época, mas dos próprios responsáveis pelos meios de comunicação."

A seguir estão postados uma sequencia de seis videos que espero que todos assistam,
VALE A PENA:













Este "post" eu dedico ao meu novo parente o "Cloaca News"
Batizado comigo no mesmo "terreiro"

5 comentários:

TERROR DO NORDESTE disse...

Enio, você é um vencedor.Juro que ainda estou emocionado. Graças a pessoas como você, hoje, eu posso mandar esses milicos,esses tucanos, esses Demos, TODOS ASSASSINOS, SIFU.

everaldo disse...

...puta merda,... e tem gente, que nada tem pra contar, e se acha tão grande...puta merda

everaldo disse...

...esta é pro Zé Ruela!
Nêgo! Teu bom gosto hoje, tá de arrepiar,... putaqueopariu.Vamu oferecer esta prá véia Esperança, vamu?

Enio, o "Picador de Bilhetes" disse...

Everaldo meu véi
O pai do "Ptrem da Treze". Eu acabei de responder o teu e-mail, vá lá !!1

Cloaca News disse...

Porra! Desse jeito, o cloaqueiro aqui não agüenta! Na verdade, este cloaqueiro nem merece tamanha homenagem. Você, sim, Ênio, é que é O CARA!
Grande abraço!!!